Pequena nota sobre o possível acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia

Alguns comentários poderiam ser feitos de maneira proveitosa sem repercutir como se fosse 'o grande lance' do Ocidente o possível tratado de livre comércio entre EUA e UE na competição geopolítica com a China, tal como aconteceu nos últimos dias pela imprensa mundo afora. Toma-se por base aqui uma reportagem republicada no blog do Luís Nassif, embora algumas outras poderiam servir ao objetivo presente.Participação dos Brics, EUA e União Europeia na população, PIB e área mundial.

É fora de questão que a posição de EUA e UE é altamente vantajosa em vista de deterem a maior fatia do comércio mundial e PIB mundiais (45% da economia mundial, de acordo dom o FMI [observe o gráfico]).

O problema, no entanto, é que esse predomínio tem data de validade. Talvez não dure vinte anos. Talvez dure até trinta. O fato é que acabará. Exceto, é claro, se a China meter-se em uma aventura militar desbaratada contra algum vizinho o qual o Estado chinês costuma hostilizar (Vietnã, Filipinas, Japão). É possível conjecturar a respeito disso porque a retórica chinesa é clara; a agressiva conduta de projeção de poder também não deixa dúvidas sobre as intenções de Pequim no sudeste asiático. Até o momento, porém, a possibilidade de enfrentamento militar é remota.

O que escapa à imprensa nessas análises triunfantes é que o papel geopolítico do Atlântico Norte está a diminuir: EUA e UE terão uma participação cada vez menor no produto mundial com o passar dos anos. Especialmente a União Europeia, a qual enfrenta a pior crise econômica desde 1929 e tem um baixo dinamismo econômico há bem mais tempo. A atuação mundial europeia diminui pelo menos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e se intensificou desde o fim da União Soviética.

E já faz tempo que a China está a deslocar o centro de gravidade da economia mundial, especialmente na produção de bens industriais. Porém a Índia, o Brasil e a Rússia também devem ser colocados na paisagem, ou os Brics, o que incluiria a África do Sul. Se levarmos em consideração a somatória das economias desses cinco países, temos 14,96 trilhões de dólares de PIB nominal (21% do produto global, de acordo com o FMI) com uma expectativa de crescimento que é de pelo menos duas a cinco vezes a da UE e EUA tomados em conjunto (os dois representam 45% do PIB mundial, ou 32,06 bilhões, também segundo o FMI).

Além disso, há outro grupo de países dinâmicos, conhecido como Next Eleven (N-11), na terminologia do Goldman Sachs (5,73 trilhões em PIB ou 8% do produto mundial também de acordo com dos dados do FMI) bem mais dinâmicos que os pares do Atlântico Norte.

As projeções de crescimento econômico dos Brics e N-11 são largamente superiores. De acordo com as estimativas do Goldman Sachs para 2.050, somente Índia e China terão, combinados, uma economia que será quase o dobro da UE e EUA somados. Porém, não há espaço aqui para entrar no mérito dessas projeções. Como se trata conjecturas econométricas de largo escopo, se deve desconfiar delas. Possivelmente a economia mundial tenda a não suportar Índia e China com o mesmo nível de consumo dos EUA. É possível, também, que o crescimento econômico dos Brics e N-11 seja a custa da estagnação econômica europeia e norte-americana concomitante ao um relativo empobrecimento destes em relação aos níveis de consumo atuais. É claro no mundo atual o aumento dos custos da energia e dos alimentos. E é em vista do padrão de consumo norte-americano atual que se está aqui a conjecturar esse 'relativo empobrecimento' mundial. Mas isso são teorizações de matiz pessimista, afinal é igualmente provável que o mundo consiga suportar o nível de consumo do mundo desenvolvido atual para os Brics (42% da população mundial) e a união aduaneira do Atlântico Norte não ter sequer a sombra da importância que teria no momento presente.

Da perspectiva deste pequeno artigo, a atual proposta de tratado comercial tende e enfatizar o relativo declínio da posição europeia, a depender o dinamismo econômico norte-americano ao mesmo tempo em que o acordo lhes daria, no médio prazo, posição relativamente vantajosa no cenário econômico mundial.

Mas isto, é claro, somente de uma perspectiva na qual se enfatize a trocas econômicas mundiais, isto é, numa perspectiva liberal. É sabido que as trocas econômicas tendem a diminuir em situações de depressão econômica ou de instabilidade política mundial. E também é de conhecimento de todos que o conservadorismo político tende a ser entre míope e obtuso na condução de uma estratégia econômica anticrise: Ângela Merkel, chanceler alemã, insiste a receitar que o melhor caminho para reativar as deprimidas economias da Grécia, Espanha, Portugal ou Itália é exatamente a austeridade econômica. Se a obtusidade do liberalismo econômico fosse menos aguçada, os seus paladinos poderiam consultar a História e observar como norte-americanos, alemães e italianos superaram a crise de 1.929. Fossem eles fascistas ou democratas, todos eles adotaram uma intervenção profunda e consistente do Estado na economia de mercado.

Demais, os Brics não têm nada a perder com essa união aduaneira, tampouco a ganhar. O crescimento no Brasil e na China atual, por exemplo, é marcadamente focado no mercado interno. E, se se tomar os Brics como um todo, ter-se-á um mercado potencial mais de três vezes maior que UE e EUA, sendo somente a China (ou Índia) superior aos dois combinados. A diminuição relativa da importância de EUA e UE é inexorável.

Projeção do PIB das principais economias mundiais em 2050 pelo Goldman Sachs.

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar

Informações adicionais